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| O espelhinho António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Naquela terra não havia espelhos. Nem nunca tinha havido.
Era uma aldeia longe de tudo, onde nada chegava. Nem espelhos.
Uma vez, o senhor Chamisso, lá da aldeia, foi à cidade. Ih, que assombro! Ruas, carros, gente com pressa, casas altas de pasmar...
Atarantado, o senhor Chamisso o que queria era voltar para a sua aldeia. Ia a passar por uma loja e viu, na montra, um espelho. | |
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| - Olha o retrato do meu pai - exclamou.
O pai do senhor Chamisso tinha morrido há anos e não era de estranhar que o filho estivesse parecido com ele.
Entrou na loja e comprou o espelho. Depois, com o espelho embrulhado debaixo do braço, voltou para a aldeia.
Chegou já era noite. | |
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| Na manhã seguinte, quando acordou, virou-se para a mulher, ainda meio estremunhada, e disse-lhe:
- Calcula o que eu encontrei, na cidade. Nem mais nem menos do que o retrato do meu pai. Vai tu ver, que o deixei embrulhado, na cozinha.
A mulher calçou os chinelos e, ainda desgrenhada e mal pronta, foi ver. | |
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| Quando desembrulhou o espelho, indignou-se:
- Ai que mentiroso que é o meu marido. A dizer que tinha trazido o retrato do pai, quando o que trouxe para casa foi o retrato de uma marafona, com cara de porca.
E foi fazer queixa à mãe.
- Só queria que a mãe visse a feiosa que ela é, toda mal pronta e esguedelhada. Uma pouca-vergonha de uma mulher! | |
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| - Deixa estar, filha, que eu vou ver e, se for como tu dizes, a gente dá uma desanda no teu marido.
A mãe foi espreitar o espelho.
- Ai que velha avantesma! - gritou.
Com o susto, largou o espelhinho, que caiu no chão e se partiu em mil bocados.
Pois foi assim tal e qual. | |
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